A banda Fiddlehead está prestes a desembarcar na América Latina para uma série de shows e, antes que os palcos falem por si, quisemos conhecer as pessoas por trás da música. Por isso, bati um papo com o Alex Dow, guitarrista da banda, para conversar sobre referências, formação artística, a cena hardcore que o moldou, os caminhos do Fiddlehead ao longo dos anos e, claro, a expectativa de tocar pela primeira vez em terras Latinas. O que surgiu foi um retrato honesto e profundamente humano de alguém que vive a música não só como ofício, mas como uma forma de existir no mundo.
Quando perguntei sobre bandas favoritas, ele reconheceu o clichê, mas não fugiu dele: “Essa é uma pergunta muito difícil… eu ouço muita música atual, trabalho com música, mas se eu tiver que escolher uma banda de todos os tempos, provavelmente é The Smiths”. Logo depois, ele mesmo ampliou o horizonte: “Conforme fui envelhecendo, The Beatles definitivamente entrariam ali em cima”. Há um carinho especial quando fala do álbum Help!: “muita gente não gosta da fase mais pop deles, mas foi o que minha mãe me mostrou. É um disco muito emocional”.
O “emocional” atravessa toda a fala de Alex. A música, para ele, nunca esteve dissociada de afeto, família ou memória. “Quando você cresce com isso dentro de casa, só mais tarde entende o quanto aquilo te formou”, contou. Ele cresceu cercado de arte: o pai é fotógrafo, artista plástico, professor. “Sou muito abençoado por ter crescido com pais criativos, que sempre apoiaram qualquer caminho que eu escolhesse.” A casa da família era um ponto de encontro constante para artistas, estudantes, músicos vindos de diferentes partes do mundo. Aquilo nunca pareceu estranho, era apenas o ambiente natural.
Esse background explica, em parte, um detalhe curioso da discografia do hardcore moderno: Alex foi creditado como fotógrafo no álbum Shed, do Title Fight, em 2011. A história, no entanto, é menos calculada do que parece. “Meu pai é fotógrafo, e um amigo da cena hardcore, o Ned, se interessou muito pelo trabalho dele. Um dia ele perguntou se eu queria fotografar a banda.” As fotos foram feitas na sala de estar dos pais, com uma câmera 8×10 enorme, daquelas que exigem tempo, cuidado e paciência. “Meu pai me ajudou. Foi algo muito orgânico.” Hoje, ele diz que acabou se afastando um pouco do caminho dos pais — “acho que quando você cresce vendo seus pais fazerem algo, tende a procurar outro caminho”. Ainda assim, a sensibilidade visual permaneceu, infiltrada na forma como ele enxerga a música.
Quando falamos sobre arte para além do som, Alex foi direto: “Para ser honesto, a música virou minha obsessão artística”. Ele se vê menos como alguém que cria sozinho e mais como alguém que ajuda ideias a ganharem forma. “Eu amo colaboração. Acho que sou bom em ajudar artistas a concluir projetos.” No Fiddlehead, isso se traduz num processo coletivo: riffs passam de mão em mão, ideias são retrabalhadas, discutidas, transformadas. “Somos cinco pessoas envolvidas no processo criativo. Isso tira o peso de um indivíduo só.”
A banda nasceu assim, sem grandes planos, num apartamento em Boston, por volta de 2012. Alex e Pat dividiam o espaço e as influências. “Eu tocava umas coisas mais emocionais na guitarra, e o Pat sempre me encorajava.” O EP inicial foi escrito praticamente pelos dois. Depois vieram outros nomes, outras formações, até que o núcleo se solidificou. “Mas tudo começou naquele apartamento.”
Não dá para falar de Alex e do Fiddlehead sem falar da cena hardcore de Boston. Ela não apenas o formou como músico, mas como pessoa. “Fomos muito mimados por certas eras”, disse, lembrando das décadas de 1990 e 2000. “Eu pegava ônibus para a cidade todo fim de semana. Ia a todos os shows possíveis.” No início, ele não se sentia parte de nada — era apenas um fã persistente. “Mas você fica tempo suficiente ali, começa a conhecer todo mundo.” Ídolos viraram amigos. Incentivo virou regra. “Mesmo se você é ruim na guitarra, as pessoas dizem: ‘tenta mais, toca mais’.” Foi ali que ele aprendeu a confiar no próprio instrumento, a subir num palco, a lidar com o medo. “A primeira vez meu braço travou. Eu estava apavorado.”
Essa vivência moldou sua relação com o underground: intensa, comunitária, honesta. Talvez por isso a expectativa de tocar na América Latina venha carregada de curiosidade genuína. “Meu conhecimento do Brasil ainda é limitado, mas sentimos o apoio. Vemos os comentários, a cobrança para irmos.” O show em São Paulo será o último da turnê — e isso, para ele, torna tudo ainda mais especial. “Tenho amigos da família na Argentina, minha noiva é chilena… terminar em São Paulo vai ser louco.”
Alex sabe pouco, mas demonstra vontade de aprender. “Eu conheço pão de queijo”, brincou, antes de admitir: “Eu amo comida. Mas não é só isso. Quero viver a cultura.” Ele fala da turnê como uma chance rara de presença real. “Não viajamos tanto. Então, quando viajamos, tentamos fazer uma refeição juntos, criar memórias.” Para ele, não importa o cansaço do voo: “Vou fazer questão de aproveitar”.
Quando o assunto vira música brasileira, ele cita a bossa nova com respeito e elogios. “Há algo no ritmo, no sentimento. Eu escuto para relaxar.” Mas demonstra curiosidade pelo rock emocional, pelo hardcore local, pelas histórias que ainda não conhece. “Com certeza quero conhecer.”
Por fim, ao falar do futuro do Fiddlehead, Alex não promete rupturas drásticas, mas movimento. “Estamos trabalhando em novos sons. Queremos evoluir o som sem alienar quem nos acompanha.” Os temas permanecem próximos: amor, morte, comunidade, passagem do tempo. “Isso foi escrito desde sempre — e ainda é relevante para nós.”
Ao encerrar a conversa, ficou claro que o que move Alex não é apenas a próxima turnê, o próximo disco ou o próximo público. É a conexão. A troca. A possibilidade de atravessar oceanos para sentir, ainda que por uma noite, que a música continua sendo esse lugar comum onde histórias diferentes se reconhecem. Obrigada, Alex. ♥
SERVIÇO
Fiddlehead + Rival Schools – São Paulo Data: Domingo, 22 de fevereiro de 2026 Horário: Abertura da casa às 16h Local: Fabrique Club Endereço: Rua Barra Funda, 1071 – Barra Funda, São Paulo/SP