Mesmo no paraíso… algo dói.
Se Take Me Back to Eden era o lamento de quem sonha em retornar ao paraíso perdido, Even In Arcadia é o confronto amargo com a verdade: talvez o paraíso nunca tenha sido o que imaginávamos.
O novo álbum do Sleep Token abandona a nostalgia para mergulhar em uma utopia corrompida, onde até os deuses sangram e a fé vacila. Mesmo envolto em beleza, Arcádia também esconde espadas, e o amor, antes divino, agora caminha com sombras. A dualidade pulsa em cada faixa — fé e descrença, luz e escuridão, salvação e rendição.
Lançado no dia 9 de maio de 2025, Even In Arcadia entrega aquela junção maluca, única e incrível que é o Sleep Token. Desde o lançamento, tenho escutado só esse álbum (literalmente), absorvendo, sentindo e apreciando o que cada faixa tem pra oferecer.
Eu poderia entrar fundo na lore da banda, citar referências, ligar pontos, mas vou me guiar pela minha interpretação, opinião e sentimento. E, pra isso, escolhi me basear na primeira faixa do disco (e que baita abertura, hein?) – Look To Windward, pois ela entrega tudo que podemos esperar da construção deste álbum e, pessoalmente, tem sido minha favorita.
Arcádia, na mitologia grega, acabou se tornando símbolo de um paraíso idealizado, de paz, distante da corrupção e dores mundanas. Mas esse “paraíso” nem sempre é só felicidade: muitas vezes, Arcádia aparece como um lugar melancólico, onde a beleza e a paz estão sempre acompanhadas de uma certa nostalgia ou sensação de perda iminente.
Uma expressão famosa ligada a isso é Et in Arcadia ego (“Eu também estou em Arcádia”), normalmente dita pela Morte, lembrando que, mesmo no paraíso, ela existe, e trazendo à tona aquilo que está acima de qualquer sentimento deste álbum: a dualidade.
É como se o Sleep Token explorasse o que é ser humano no limite: com o coração dividido entre o sagrado e o terreno, fé e ceticismo, luz e escuridão, redenção e ruína.
Look To Windward simboliza bem esse ponto de ruptura, especialmente na pergunta desesperada lançada no meio do caos:
“How could I already lose my way like this?”
Esse trecho resume o abismo interno que permeia o álbum. E é no clímax dessa faixa, quando a calmaria (agonizante eu diria) colide com a explosão dos instrumentos, que sentimos a revolta latente ganhar forma: há um peso maior, uma angústia quase sufocante que estava prestes a explodir… e explode.
Quando digo “peso maior”, me refiro também à sonoridade: mais seca, crua, direta. É como se eles quisessem que você sentisse cada porrada sem qualquer tipo de amortecimento.
E não tem como não abrir um parêntese aqui pra falar da performance absurda dos caras nesse disco. Todos entregam um trabalho impecável, mas é impossível não destacar ainda mais os vocais do Vessel, que atingem um nível técnico e emocional impressionante. E o baterista, II, é um cavalo, ponto. Você sente que ele compôs tudo com sangue no olho. O resultado ficou simplesmente incrível.
Vale lembrar que agora a banda está sob o selo da RCA Records, o que marca uma nova fase talvez mais ousada, talvez mais perigosa, veremos.
Não quero me alongar muito, mas se você ainda não embarcou nessa nova aventura, por qualquer motivo que seja, tire um tempo com seu melhor fone de ouvido pra curtir tudo que os caras entregaram aqui: uma jornada de autodestruição, pedido de salvação, confronto com a própria sombra, conflitos existenciais, angústia espiritual, solidão profunda e, acima de tudo, a esperança tênue de que alguém possa impedir o colapso final.
Tudo isso passeando pelo Metal, RnB e até um Reggaeton ali no meio (sim, você leu certo), entre muitas outras influências. E, acredite em mim: funcionou.
Pra finalizar, minhas três faixas favoritas, respectivamente: Look To Windward, Infinite Baths e Dangerous.
“Will you halt this eclipse in me?“
Até a próxima!

