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Entrevista: Quem é você, Alice?

QuartEMO!
Atualizado em: 22 de agosto de 2025 22:53
QuartEMO!
20 Min Read
Design por Marfelo
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Há uma euforia singular em descobrir uma banda logo antes de um lançamento importante. Senti isso na manhã de 15 de novembro de 2023, apenas algumas horas antes de entrevistar a Quem É Você Alice?, uma banda de Porto Alegre que tece uma narrativa de amadurecimento e melancolia espalhada por diversos gêneros, mas que vai sendo tocada cada vez mais pelo mais puro Midwest Emo, ou como eles chamam, Emo Caipira*.

Contents
Nosso papo com a Quem É Você Alice?Serviço

*termo cunhado pelo baterista da banda paulistana Chococorn and the Sugarkanes, Alê.

Enquanto escrevo, a Quem É Você Alice?, ou QEVA, tem 2.500 ouvintes mensais no Spotify. Para atingir esse número, foram necessários oito anos de banda, o lançamento de dois singles e um EP, serem notados por  Lucas Silveira, da Fresno e entrarem na playlist Indie Brasil. Tudo isso culminou neste momento, onde a nossa conversa aconteceu, dois dias antes do lançamento do “rolê trevas pt. II”, seu primeiro álbum completo.

Sentados em um sofá, Conrad (bateria e voz), Anakas (voz e guitarra), Milena (voz e guitarra) e Pires (baixo) tornaram meu trabalho muito fácil. Nossa conversa gradualmente se transformou em uma entrevista enquanto eles se revezavam, compartilhando a jornada da banda.

Nosso papo com a Quem É Você Alice?

  • Como foi o percurso desde as primeiras demos, que inicialmente não possuíam  características marcantes, passando pelo EP, onde vocês flertaram com diversos estilos, até chegar ao álbum que realmente incorpora o Real Emo?

Anakas: Foi um grande processo de convencimento. No início da banda, tínhamos uma visão muito mais Indie. Nós escutávamos muito mais Dingo Bells (atualmente Dingo), banda aqui de Porto Alegre (POA) que vai mais para o lado do Indie BR, além de bandas como The Strokes ou Arctic Monkeys, até 2019. Foi nesse ano que um amigo de outra banda de POA começou a me apresentar muitas bandas de Math Rock e Midwest Emo, desde Cap’n’Jazz e American Football da década de 90 até bandas mais recentes, como Mom Jeans, por exemplo, que é uma banda que gostamos muito.

Esse álbum, no fim, é, na verdade, esse processo de amadurecimento entre o Indie que a gente fazia, mas puxando principalmente para um lado mais denso e pesado. Porém, ao mesmo tempo em que traz uma letra melancólica, também é, em alguns momentos, divertida – uma letra de rolê mesmo. Tem várias músicas no álbum que são sobre rolê, como a faixa ‘Germaboys | a crise do prensado’, que tem uma pegada mais bobeira.

Conrad: A música é sobre um encontro que dá errado. É uma das poucas músicas do álbum que tem uma história narrada. É sobre um cara que precisa comprar maconha para mina que ele quer pegar, mas tudo dá errado. Então, acho que faz um bom contraponto, mostrando que mesmo tendo músicas que tratam de temas mais pesados nas composições da Anakas, também rola um contraponto mais bem-humorado e leve.

Anakas: É o Emo Caipira, né? A música Caipira tem essa característica de ser meio narrada, contando uma história, e o Emo também tem isso presente. Outra referência que, para nós, é meio inesperada, mas é bem real, é o Sertanejo. Na minha concepção, é o mais parecido que a música brasileira tem com o Emo americano, que é uma choradeira. São músicas carregadas de emoção, o arranjo vai construindo várias etapas, preparando para chegar no refrão carregado.

Conrad: Voltando um pouco no que a Anakas falou sobre o convencimento e a troca de estilo, eu acho que tem também muito a ver com nosso amadurecimento. Hoje, eu e o Pires temos 22 anos, a Anakas tem 21 e a Milena 20. Apesar de sermos jovens, lançamos nosso EP em 2020, mas começamos a gravá-lo em 2019, e nessa época tínhamos entre 16 e 18 anos, sabe? Acho que mostra bem como a gente mudou como pessoa e o que a gente ouvia.

A parte do convencimento foi interessante, pois quem mais foi influenciado fui eu, já que eu não estava mais ouvindo Rock, em geral. Nessa época, eu estava ouvindo muito Jazz e MPB. Eu e a Anakas conversávamos muito sobre a vibe das nossas músicas, tentando chegar num consenso, e eventualmente descobri uma banda por conta própria, que apresentei para a Anakas e ambos gostamos muito, que é uma banda japonesa chamada Toe. Na hora, ela me disse que aquilo ali era Math Rock, e foi onde concordamos. A partir dali, fomos experimentando e gostando juntos do que estávamos fazendo, e esse foi o processo de composição do álbum, junto das músicas que ela já tinha e fez durante.

  • Pelo que vocês contam, foi uma história de convencimento, mas também de descobrimento. As playlists pessoais no perfil do Spotify contam essa história, com a Anakas trazendo o garimpo e vocês colocando o temperinho Emo no que já traziam como referência…

Anakas: É um bagulho meio estudo também. Quando a gente foi gravar o álbum, a gente tirou uma música da Fresno, uma do Mom Jeans…

Pires: A gente tentou uma do Toe. 

Anakas: A gente ficou escutando muito as bandas, e também tive um lance de querer descobrir o que tinha no Brasil. A primeira que eu conheci, que chegava perto desse som, é a Ludovic, lá do início dos anos 2000. Outra que eu já ouvia, mas não sabia que fazia parte dessa cena Emo Revival, é a Lupe de Lupe que, influenciou e abriu portas para muitas outras bandas, como El Toro Fuerte, outra banda mineira que a gente tem como referência.

  • O álbum se chama rolê trevas pt. II. O que é o rolê trevas?

Pires: Acho que tem muito a ver com o que a gente tava vivendo na época, né? A gurizada com 18 anos, durante a pandemia, um período que mal conseguimos nos ver direito e, quando rolava, tinha que aproveitar muito. Acho que ‘rolê trevas’ foi um nome simples para o ano de 2021, em que a gente viveu dando esses rolês meio obscuros, tentando não juntar muita gente, em função da pandemia.

Anakas: Sabe a capa do single ‘Diamantina’? É aquilo. Essa foto, inclusive, foi tirada num rolê na CB, em que o meu amigo, que tirou a foto, ia subir nas minhas mãos para pegar impulso e pular, tirando a foto em movimento. Só que, no momento em que ele pulou, ele me acertou uma joelhada na cara! Então agora vocês sabem, naquele momento, eu tava levando uma joelhada na cara.

Milena: O ‘rolê trevas’, na real, é o próprio show que a gente faz. E se, no show, alguém perguntar ‘Mas por que o nome do álbum é esse?’, meu, tu tá no ‘rolê trevas’, é isso, tá ligado?

Anakas: Os nossos shows são bem trevas, é um negócio catártico, no sentido de que a gente se doa muito, sabe? Tipo o Conrad, tocando bateria gritando pra caralho, eu me expondo muito…

  • E como foi o processo de gravação do álbum? 

Anakas: Foi um projeto assim: a gente sentou, se convenceu de que a gente queria fazer essa sonoridade. A gente tinha um objetivo, né? Tipo, a gente quer chegar lá. E a gente ficou desde 2021, até esse ano (2023) produzindo. Esse álbum, então, foi basicamente quase uns 3 anos de produção, tá ligado?

Conrad: O processo de gravação foi bem estressante. Na verdade, sim, porque a gente começou a gravar no fim de 2020.

Pires: É novembro ou dezembro de 2020.

Conrad: É, eu lembro. Tem memória da gente fazer uma pré-produção, daí começamos a gravar umas guias em 2020. Quando estava começando a abrir um pouco as portas da pandemia para algumas coisas mais leves, a gente começou a gravar. Passou o carnaval de 2021, daí todo mundo ficou em casa de novo.

Às vezes, um ia gravar uma coisa, sabe? Por exemplo, eu gravei a bateria sozinho com o produtor, que era o Wendel. Eu gravei a bateria sozinho, sabe, tipo, a gente não tava junto o tempo todo. Então, com um processo meio lento, quando dava uma brecha, se via um pouco, gravava um negócio e já voltava. Enfim, o que aconteceu: o processo podia ter demorado tipo um ano, demorou três, foi até agora. Então, tem várias coisas no meio; tem um membro que saiu, não dá para ignorar esse fato, um membro da banda saiu, a gente teve que gravar umas coisas.

A Milena entrou no meio do processo de gravação do álbum, mais pro fim, assim, e aí ela gravou as partes dela…

Pires e Anakas: Não, foi ano passado, foi novembro do ano passado. 

Anakas: É importante falar que a gente tá lançando esse álbum pelo selo Naif, né? Que é um selo aqui de POA, criado pelo Wendel e pelo Gustavo, que o Conrad também faz parte. A gente tinha muita vontade de fazer parte de um selo, lançar por um lugar, e é foda, a gente gosta muito do Gustavo. Ele é quase o quinto Beatle do bagulho, porque ele toca com a gente ao vivo, ele faz as guitarras também, mas a parte da criação da banda, assim, geralmente fica mais entre nós quatro. O Gustavo mais como, vamos dizer assim, é mais o Mestre dos Magos.

Conrad: Na função, né? Gravação, captação. Mas então, a gente tem uma parceria para gravar o que a gente quiser. A gente vai começar a fazer esse próximo álbum, singles, EPs também. Tem música nova que a gente tá lançando.

Anakas: o Gustavo Ele é da banda Cidade Azul, então ele que é o feat né da nossa última música.

Conrad: Eu também sou aqui também a bateria dessa banda, que acabaram de lançar um som novo inclusive a cidade azul é uma uma outra banda aqui de Porto Alegre também que começou na mesma época que a gente.

  • Como vocês enxergam a cena musical atual no Brasil, especialmente em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul como um todo, considerando a crescente influência do Midwest Emo? O que mais chama a atenção de vocês nesse cenário?

Anakas: Eu sempre fui uma pessoa meio apaixonada por conhecer bandas e entendê-las, ir atrás. Quando comecei a fazer música, em 2014, aqui em POA, não tinham bandas que eu pirava. Tinham bandas que eu gostava, óbvio, mas eram bandas dessa Nova MPB. Não tinha muita banda de Rock, e as que tinham não eram necessariamente de POA, mas de outros lugares, como, por exemplo, Caxias do Sul e outros lugares da região, sabe?

Só ali por 2015, no mesmo ano que a Quem É Você Alice? surgiu, foi criada a Bella e o Olmo da Bruxa, que é uma banda. Não tem como a gente não citar, pois somos da mesma cidade e, hoje em dia, eles estão grandes na cena, são referência na cena do Rock Triste. E uma banda viu a outra crescer.

Conrad: A gente dava rolê com eles também.

Anakas: Tivemos nossas histórias e, apesar de estarmos em caminhos diferentes, a gente sempre frequentou shows uns dos outros! Nós acompanhamos toda evolução deles, de qualidade sonora, estética e tal, e víamos a sinceridade no que eles faziam. Então foi realmente uma banda super importante para o nosso desenvolvimento. Daqui também, tem o pessoal da Freiya, que lançou álbum esse ano e que também faz um som puxado para o Midwest Emo e que gostamos muito. Acho que de 2017 para cá, começou a se criar mais bandas mesmo, como Quarto Imaginário, Projeto Hare, Naahra ou a Isótopos.

Já a nível nacional, de São Paulo (SP), tem bandas como a Chococorn and the Sugarcanes, banda que eu sou muito fã, a Chão de Taco, que a gente curte demais também e que estamos com ideias de fazer show. Não necessariamente dentro do escopo do Emo, mas a própria Terno Rei, ou o pessoal da Exclusive os cabides, de Santa Catarina (SC), que não tem nada a ver com Emo, mas são referência para nós. Temos um sonho de um dia fazer um álbum que seja uma mistura perfeita de Jazz, Emo e MPB, sabe? E o pessoal da Exclusive vai para um lado bem MPB Psicodélico, que também é uma referência.

Pires: Eu acho que nossas referências aqui de POA e RS foram muito mais bandas que a gente foi crescendo junto, como as que comentamos, de 2017 para cá, e que a gente dividiu espaço em festivais diferentes. Por exemplo, dá para citar a Templo de Sophia, de Canoas, e o pessoal da Gato Vesgo, de Osório. Tem também uma banda que pelo menos eu e o Conrad somos muito fãs, que é a Sofá a Jato, que lançou seu último álbum em 2022. De POA, tem a Recreio, a Alpargatos e a Cardamomo.

  • Vocês têm alguma mensagem ou dica que gostariam de compartilhar com os leitores?

Anakas:  Agora, no dia 17 de novembro, lançamos nosso primeiro álbum. Já no dia 8 de dezembro, às 19h, no Bunker, vamos abrir para Lupe de Lupe. No dia seguinte, 9 de dezembro, estaremos tocando no Morrostock, um festival tradicional aqui no Rio Grande do Sul, que contará também com a presença de Rogério Skylab, a própria Lupe, além de vários outros artistas!

Acredito que, no fim das contas, estamos vivendo um momento simbólico, com tudo isso acontecendo meio em sequência, desde o álbum até os shows, e esta entrevista também destaca isso. Desde 2019, acompanho a QuartEMO e agora contribuir com isso é incrível, tá ligado?

Por fim, algo que eu queria dizer, é que vocês comentaram no início e eu achei muito legal, foi que o Lucas Silveira, da Fresno, notou a gente quando lançamos nosso EP. Cara, isso acho que foi um dos principais motivos para a gente seguir em frente e hoje estar aqui, lançando nosso primeiro álbum. Então, o recado que deixo é: façam bandas e queiram que as pessoas que vocês admiram ouçam, porque eventualmente vão ver ou ouvir, se vocês quiserem. É tudo uma questão de tempo. Para a gente, demorou oito anos para chegar numa pessoa que a gente admira, que é o Lucas Silveira, então dificilmente vai ser do dia para a noite. Foi quase uma década para ele fazer um tweet, o qual ele nem deve lembrar mais, mas que para nós mudou nossa vida.

Então, acho que o grande lance que queremos que a Quem É Você Alice? passe, é esse rolê trevas, que no fim das contas é tu fazer o teu rolê, do jeito que tu se sente confortável, com quem queira realmente estar contigo, e não desistir nunca!

Foto por @expedidorsounds

Serviço

No momento da publicação deste texto, a Quem É Você Alice? já havia conquistado 400 novos ouvintes mensais. O álbum “role trevas pt. II” traz 10 faixas de um Emo jovem, perdido entre ruas e vielas de uma cidade insalubre, triste e eufórica. A natureza confessional da música Emo, às vezes, te transporta, assim como o “Best Buds” do Mom Jeans te leva para um sofá bebendo cerveja quente em Berkeley. O “role trevas pt. II” nos transporta para sabe-se lá que espelunca que esses 4 jovens frequentam enquanto erram, acertam, se machucam e crescem.

Se eu puder te recomendar alguma música, eu te recomendo logo duas: a sequência ‘controle do play (o do xbox é melhor porque dá para usar no pc)’ e ‘pra todas as ruas de porto alegre em que eu (não) te beijei’. Mas o álbum todo é recheado de momentos maravilhosos, boas composições e arranjos inteligentes, assim como pequenas piadas e surpresas. Você pode conferir o álbum na íntegra:

e também conferir a playlist que a Anakas fez pra gente com todas as bandas que eles citaram aqui e mais algumas:


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Entrevista Quem É Você Alice?
Por Marfelo & Cainã
Editor: Ferrer

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