Publicada originalmente com diagramação artística e fotos do evento na Quartemo MAG #001
Neste sábado, dia 24 de Setembro, é celebrado o Dia do Emo, pelo menos no Brasil. Mas, de onde saiu essa data?
Na verdade, ela tem uma origem bem maldosa, lá em 2007, um blog de humor resolveu cunhar essa data e cooptou diversos outros blogs, para fazer posts neste mesmo dia zoando os emos. Essa é, sem dúvida, uma ideia alinhada com a única moda mais popular que o emo naquela época: o ódio ao emo.
De lá para cá, muita coisa mudou e percebemos que esse ódio, não passava de homofobia. O Emo, por fim, sobreviveu ao teste do tempo, sendo um movimento cultural e estilo musical duradouro, deixando sua marca na sociedade e a origem da data quase que se perdeu nos hyperlinks da internet.
Hoje, a data foi ressignificada por diversos emos pelo mundo e nós do QuartEMO queremos aproveitá-la para recapitular os quase 40 anos de história do movimento e olhar nas formas que ele se apresenta hoje em dia.
As ondas do emo
O Emocore nasceu na metade dos anos 80. Vale ressaltar que os principais historiadores do Emo gostam de definir seus principais momentos em “ondas”, que coincidem, aproximadamente, com a passagem das décadas Essa será uma viagem cheia de nomes de bandas, então, vá no seu tempo, não tenha pressa, aproveite para conferir os artistas, você não vai se arrepender.
Anos 80 – Primeira Onda: EMOCORE
O Rites of Spring foi a primeira banda a ser chamada de emo. Vindos do Hardcore, a banda liderada por Guy Picciotto, propôs mudanças nas temáticas das letras, tornando-as mais introspectivas, e também na postura de seus participantes. De maneira geral, essa nova vertente antagonizava com a cena agressiva de Washington D.C, por volta de 1985. Ao lado do Rites of Spring, nesse período, estavam bandas
como o Embrace, de Ian Mackaye, que viria a formar junto com Piccioto, o Fugazi, uma das bandas mais icônicas do movimento, alguns anos depois. Esses músicos viveram e foram responsáveis pelo Revolution Summer, uma oportunidade da própria cena HC de rever seus conceitos e evoluir. Foi nessa época, que a revista Thrasher cunhou o termo emocore e utilizou para se referir às bandas que dissidiam do HC.
Obviamente, esse termo foi rejeitado pelos músicos, mas isso também viria a ser tradição no movimento nos próximos, e muitos, anos.
Bandas Importantes:
- Rites of Spring
- Embrace
- Beefeater
- Jawbreaker
- Dag Nasty
Anos 90 – Segunda Onda: MIDWEST EMO
Com o passar da década, bandas como o The Get-Up Kids, aproximam o emo do pop-rock e do pop-punk, criando a sonoridade que levaria o Jimmy Eat World ao estrelato. Bandas mais pesadas, como Orchid e Saetia, seguiram para outra direção e foram as responsáveis por criar as bases do que viria a ser o Screamo. Já, o American Football, traz para a cena elementos técnicos do Math Rock, começando a ampliar o conceito de emo.
A Segunda onda do emo viu a suavização do Hardcore ser levada muito adiante. A partir desse momento, o “emo” começa a perder seu “core”. Uma sonoridade mais sensível e dinâmica, começa a surgir com bandas como Sunny Day Real Estate (cujo baixista Nate Mendel, atualmente faz parte do Foo Fighters) e
Cap’n Jazz. É neste período que também ocorre uma migração, o emo sai da costa e parte para o “midwest”. Com o passar da década, bandas como o The Get-Up Kids, aproximam o emo do pop-rock e do pop-punk, criando a sonoridade que levaria o Jimmy Eat World ao estrelato. Bandas mais pesadas, como Orchid e Saetia, seguiram para outra direção e foram as responsáveis por criar as bases do que viria a ser o Screamo. Já, o American Football, traz para a cena elementos técnicos do Math Rock, começando a ampliar o conceito de emo.
Bandas Importantes:
- The Get Up Kids
- Sunny Day Real Estate
- American Football
- Orchid.
Anos 2000 – Terceira Onda: EMO-POP
Essa foi a geração que viu tudo mudar. Vindo da segunda onda, o Jimmy Eat World se reinventa com o brilhante álbum Bleed American e, junto de bandas como Taking Back Sunday, Dashboard Confessional e Thursday, definem o espectro do som emo que chega na grande mídia e influencia uma nova geração de bandas. Simultaneamente, outras bandas fizeram o mesmo pelo pop-punk, como Blink 182, New Found Glory e Sum 41.
Essa é a geração responsável pela amálgama entre os dois gêneros e que alcança o sucesso absoluto na segunda metade da década. Alavancadas por uma virada no status quo estético, bandas como Good Charlotte, My Chemical Romance, Paramore e Fall Out Boy também revolucionaram na sonoridade, o que os tornaram um produto completo.
Seguindo essa onda, podemos analisar a chegada do Neon Pop-punk. O visual preto e branco dá lugar a roupas coloridas e sintetizadores, quando bandas como Cobra Starship, Hey Monday, All Time Low e Forever The Sickest Kid recebem muita atenção da grande mídia, antes do retorno do movimento ao underground.
Bandas Importantes:
- Jimmy Eat World
- Thursday
- My Chemical Romance
- Paramore
Anos 2010 – Quarta Onda: REVIVAL?
Após o sucesso comercial, muitas bandas icônicas encerram suas atividades ou mudaram sua sonoridade, mas o Emo seguiu, com ou sem eles. É difícil analisar a quarta onda, pois ela tem várias facetas. Com um mercado próprio estabelecido com festivais, revistas e premiações próprias, o Emo sai do mainstream e cresce para os lados, abraçando diversos subgêneros. Quando pensamos na quarta onda, geralmente
estamos nos referindo a uma geração de bandas que buscou inspiração na segunda onda para “reviver” o gênero, levando ele de volta a suas origens, por exemplo, podemos citar Tigers Jaw, Into it Over it, La Dispute, Modern Baseball, Tiny Moving Parts e Foxing, que trouxeram nova vida a essa sonoridade.
Enquanto isso, o pop-punk que agora estaria perpetuamente embaixo do guarda-chuva emo, também foi agraciado por uma nova geração; State Champs, Neck Deep e The Story So Far trouxeram a energia de volta a cena, enquanto bandas como Real Friends, Knuckle Puck, Title Fight, Turnover e The Wonder Years transitaram entre os gêneros, ao longo de suas carreira.
Com uma sonoridade mais pesada, o metalcore e o post-hc tiveram, também, um grande crescimento se tratando de popularidade. Bandas como Pierce The Veil, Sleeping with Sirens e Asking Alexandria encontraram grande sucesso comercial, enquanto bandas como A Day To Remember, Chunk! No,
Captain Chunk! e Four Year Strong, aprenderam com o New Found Glory e consagraram um novo subgênero: o Easycore.
Finalmente, nesse período, temos o Emorap, onde artistas com Lil Peep, Nothing,Nowhere, Princess Nokia e Juice Wrld incorporam samples, melodias e a estética emo a influências de Hip-Hop e Trap revolucionando o mercado, marcando a indústria para sempre.
Bandas Importantes:
- Modern baseball
- Neck Deep
- Pierce The Veil
- Lil Peep.
UMA NOVA ONDA – e-mo
No final da última década, a Warped Tour, festival icônico da cena, teve seu fim decretado. Se por um lado, o emo perdeu seu maior palco, o vácuo abriu espaço para que novas vozes florescessem. Com a pandemia em 2020, forçando o mundo a entrar em uma fase de introspecção e nostalgia, o gênero encontrou uma nova vida. Grandes artistas como Demi Lovato, Blackbear, WILLOW e MOD SUN puderam voltar às suas origens e produzir álbuns de rock, com alguma ou muita influência do emo, muitas vezes apoiados e produzidos pelo baterista do Blink 182, Travis Barker, e/ou pelo vocalista do Goldfinger, John Feldmann. As redes sociais também deram espaço para artistas como Jxdn, Maggie Lindemann e Huddy serem descobertos e catapultados a fama.
Já artistas como Girl In Red, Julien Baker, Hobo Johnson e Phoebe Bridges que tem suas origens e influências no revival da última década, passaram a receber reconhecimento e espaço em grandes festivais, assim como o Bring Me The Horizon, que durante a quarta onda transformou seu som e chega nessa nova era como uma das maiores bandas do mundo.
Mas o melhor da quinta onda veio, como sempre, do underground. Nunca antes,a cena emo/pop-punk/alternativa foi tão plural quando o assunto são as bandas. Mulheres, pessoas de cor e todo o espectro LGBTQIA+ passaram a ser representados por diversos artistas como, Meet Me At The Altar, Pinkshift, Seeyouspacecowboy, Camp Cope, Hotmilk, Stand Atlantic, Kenny Hoopla, DE’WAYNE, Like Pacific… a lista continua, ainda bem! Os dias de hegemonia de homens brancos cis-heteros acabaram, e agora todo mundo pode ter espaço no holofote.
É possível perceber que a quinta onda está apenas começando, sonoramente ela é muito ampla, com bandas se inspirando nos últimos 40 anos do movimento e levando ele pra frente. Numa era de pós-gêneros, a quinta onda se preocupa muito menos, com se manter dentro de caixinhas do emo. Também é interessante destacar a influência do hyperprop nessa nova geração, com Glass Beach, Brekance, Royal and The Serpent, Origami Angel, Braden Ross e Poptropicalslutz. O futuro é brilhante para o emo, cada vez mais colorido, consciente de si, diverso e dramático.
Para nós, como consumidores e amantes do movimento, resta acompanhar, consumir e documentar essa nova geração de artistas. Definitivamente, não era só uma fase.
O EMO É PRA SEMPRE, FELIZ DIA DO EMO!
TEXTO: MARFELO LACERDA
FONTES:
- The beginner’s guide to the evolution of emo – nme.com
- Rock fandom
- IN ITS FOURTH WAVE, EMO IS REVIVED AND THRIVING – fansided.com
- What is 5th wave emo? An Introduction to 5th wave emo – sadjamz
- O guia definitivo do emo pra você parar de falar burrice – medium, lucas portal
- thread sobre a origem da data – @tric0s no twitter

